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André Gelfi critica “mercados de previsão” e alerta para riscos de fuga da regulamentação no setor de apostas

O debate sobre a regulamentação das apostas esportivas no Brasil ganhou novos capítulos durante o SBC Summit Rio 2026, um dos principais eventos da indústria de iGaming da América Latina. Em entrevista concedida após o evento, André Gelfi, membro fundador do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), comentou os principais desafios enfrentados pelo setor regulado.

Entre os temas abordados estão o combate ao mercado ilegal, a discussão sobre a proibição da publicidade das bets e o crescimento dos chamados mercados de previsão (prediction markets), que, segundo ele, podem ser utilizados como uma forma de contornar a regulamentação.


Combate ao mercado ilegal segue como principal desafio do setor

Para Gelfi, o combate ao mercado clandestino deve ser a principal prioridade da indústria de apostas no Brasil em 2026. Segundo o executivo, muitos dos problemas associados ao setor estão diretamente ligados às operações ilegais que atuam fora do alcance das autoridades.

Entre os riscos mais relevantes presentes no mercado clandestino estão:

  • Falta de controle sobre práticas de jogo responsável
  • Ausência de mecanismos de prevenção à compulsão
  • Maior vulnerabilidade à manipulação de resultados
  • Falta de proteção ao consumidor

De acordo com Gelfi, é nesse ambiente não regulado que surgem grande parte das externalidades negativas atribuídas às apostas.

Ele também destacou que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) tem realizado um trabalho importante na fiscalização do setor, mas ainda enfrenta o desafio de aprimorar continuamente o arcabouço regulatório.


Proibição de publicidade pode favorecer operadores ilegais

Outro tema sensível abordado na entrevista foi o projeto de lei aprovado na Comissão de Ciência do Senado que propõe proibir a publicidade das casas de apostas.

Para Gelfi, a medida pode ter o efeito contrário ao pretendido.

Segundo ele, restringir a publicidade dificulta a identificação de operadores regulados e prejudica a canalização dos jogadores para o mercado legal.

Consequências possíveis da proibição de publicidade

Entre os principais riscos apontados pelo executivo estão:

  • Maior visibilidade para operadores clandestinos
  • Redução da capacidade de diferenciação entre empresas reguladas e ilegais
  • Diminuição da arrecadação pública gerada pelo mercado formal

Na visão do IBJR, a publicidade desempenha um papel importante na construção de um ambiente regulado e transparente.

“É uma ideia temerária imaginar que coibindo a publicidade você vai diminuir os problemas do setor. Em um mercado que está se formalizando, isso dificulta a canalização para o mercado legal”, afirmou.


Mercados de previsão podem ser apostas disfarçadas

Um dos pontos mais polêmicos da entrevista foi a análise sobre os chamados prediction markets, plataformas que permitem aos usuários negociar contratos baseados em previsões de eventos futuros.

Nos Estados Unidos, plataformas como Polymarket e Kalshi têm gerado debates regulatórios ao operar modelos que alguns interpretam como instrumentos financeiros derivados.

No entanto, Gelfi acredita que, no caso de eventos esportivos, esses mercados não passam de uma nova forma de apostas.

“Manobra criativa para fugir da regulamentação”

Segundo ele, a tentativa de classificar essas operações como derivativos financeiros é uma interpretação artificial.

Na prática, a experiência do usuário seria equivalente à de uma aposta esportiva tradicional.

“Mercado de previsão em esporte é uma manobra criativa para fugir da regulamentação. São apostas com uma formatação diferente, mas no final das contas estamos falando de aposta esportiva.”

Para o executivo, qualquer plataforma que permita previsões financeiras baseadas em resultados esportivos deveria ser regulada diretamente pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).


Regulamentação de fornecedores também é essencial

Outro ponto levantado por Gelfi diz respeito à necessidade de incluir fornecedores de tecnologia e jogos dentro do marco regulatório brasileiro.

Segundo ele, a experiência internacional mostra que a regulamentação eficaz não deve se limitar apenas aos operadores de apostas.

Atualmente, muitos provedores de tecnologia podem atuar simultaneamente em mercados regulados e ilegais, fornecendo infraestrutura para ambos.

Por que regulamentar fornecedores?

Entre os benefícios apontados estão:

  • Maior controle sobre a cadeia de valor do setor
  • Redução do suporte tecnológico ao mercado ilegal
  • Fortalecimento da integridade do mercado regulado

A SPA recentemente abriu uma consulta pública para discutir justamente a inclusão dos fornecedores B2B no escopo da regulamentação brasileira.

Para Gelfi, essa iniciativa é fundamental para garantir que empresas que desejam atuar no mercado legal brasileiro não possam simultaneamente prestar serviços para operadores clandestinos.


O papel do IBJR no mercado brasileiro

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) reúne aproximadamente 75% do mercado regulado de apostas no Brasil e atua como uma das principais entidades de representação da indústria.

Entre suas principais pautas estão:

  • Defesa do jogo responsável
  • Combate ao mercado ilegal
  • Colaboração com autoridades regulatórias
  • Desenvolvimento de boas práticas para operadores

A entidade tem participado ativamente das discussões sobre regulamentação e políticas públicas relacionadas ao setor.


Regulamentação ainda está em fase de amadurecimento

O mercado brasileiro de apostas reguladas ainda passa por um período de adaptação e amadurecimento institucional.

Entre os temas que continuam em debate estão:

  • Limites para publicidade do setor
  • Regras para fornecedores e desenvolvedores de jogos
  • Mecanismos de prevenção à ludopatia
  • Estratégias de combate ao mercado ilegal

Para especialistas da indústria, a evolução da regulamentação será determinante para garantir que o crescimento do setor ocorra de forma sustentável, transparente e alinhada com padrões internacionais.

A discussão sobre prediction markets, publicidade e fiscalização mostra que o Brasil ainda está construindo as bases de um modelo regulatório capaz de equilibrar desenvolvimento econômico e proteção ao consumidor.

João das Bets

"Sou um escritor movido pela paixão por tecnologia, apostas e inteligência artificial. Adoro explorar e compartilhar conhecimentos, traduzindo ideias complexas em conteúdo acessível e inspirador. Sempre em busca de novas formas de conectar pessoas com inovação."

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