As apostas online no Brasil voltaram ao centro do debate político e econômico após declarações do vice-presidente Geraldo Alckmin, que indicou que o governo federal irá implementar novas restrições para o setor de bets. A fala ocorreu durante uma reunião com lideranças do varejo em Brasília e reforça um movimento crescente de pressão por maior controle sobre o mercado regulado.
O tema envolve não apenas questões regulatórias, mas também disputas entre setores econômicos, impacto no consumo das famílias, arrecadação tributária e o risco de crescimento do mercado ilegal.
Alckmin defende novo “aperto” nas apostas online
Durante reunião realizada em Brasília com representantes de entidades do varejo, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo federal pretende adotar medidas adicionais para restringir o funcionamento das plataformas de apostas online.
Participaram do encontro João Galassi, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), Leonardo Miguel Severini, presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (ABAD), além de representantes da Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (ABAAS).
O encontro teve como pauta principal o agradecimento ao apoio do governo ao PL 2158/2023, que permite a instalação de farmácias completas em supermercados. No entanto, a discussão sobre apostas online ganhou protagonismo durante a reunião.
Ao comentar o tema, Alckmin destacou que o governo já avançou ao regulamentar e tributar o setor, retirando-o da clandestinidade, mas afirmou que novas medidas serão necessárias.
“Conversamos também sobre a questão das bets. Elas não tinham regulamentação, era tudo clandestino. Então foi regulamentado, foi aplicado tributo, imposto, e vai ser dado mais um aperto aí pra gente evitar esse jogo no celular, que é uma coisa muito preocupante, levando à ludopatia.”
A fala indica que o foco das novas restrições deve estar principalmente no uso de apostas por dispositivos móveis, considerado um dos principais vetores de acesso ao mercado.
Regulamentação das apostas no Brasil: contexto recente
O mercado de apostas online no Brasil passou por uma transformação estrutural recente. Até poucos anos atrás, o setor operava majoritariamente de forma informal, sem regulamentação clara e com baixa capacidade de fiscalização.
Com a regulamentação implementada, o governo passou a:
- Formalizar a operação das plataformas de apostas
- Aplicar tributação sobre o setor
- Criar mecanismos de controle e fiscalização
- Buscar proteção ao consumidor
Apesar desses avanços, o debate agora gira em torno da necessidade de medidas adicionais para mitigar impactos sociais, especialmente relacionados ao vício em jogos.
Varejo intensifica críticas às bets
O posicionamento do governo ocorre em um contexto de forte pressão do setor varejista, que tem associado o crescimento das apostas online a efeitos negativos na economia real.
Entidades como a ABRAS defendem que o avanço das bets estaria contribuindo para:
- Queda no consumo das famílias
- Aumento do endividamento
- Redução do desempenho do varejo
Esse movimento ganhou força ao longo de 2025, quando a associação lançou campanhas públicas contra as plataformas de apostas, incluindo ações de comunicação e posicionamento político em Brasília.
A campanha incluiu um vídeo institucional criticando o setor e defendendo maior tributação, além de relacionar o crescimento das apostas a problemas sociais como insegurança alimentar.
Setor de apostas reage e judicializa o conflito
As acusações do varejo foram contestadas pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que ingressou com uma ação judicial contra a ABRAS.
A entidade questiona a veracidade das informações divulgadas e afirma que não existem evidências concretas que sustentem a relação entre apostas online e queda no consumo.
Principais pontos levantados pela ANJL
- As alegações do varejo não possuem base empírica
- Os dados apresentados são generalizados e potencialmente difamatórios
- O setor de apostas é legítimo e regulado
A ANJL também contestou diretamente a afirmação de que o varejo teria perdido R$ 103 bilhões devido às apostas, classificando a informação como infundada.
Como contraponto, a entidade apresentou dados oficiais do IBGE que mostram crescimento de 4,7% no varejo em 2024, indicando ausência de correlação direta com o mercado de apostas.
“Dados oficiais mostram que o varejo cresceu, não havendo elementos objetivos que vinculem o desempenho do setor ao mercado regulado de apostas.”
Debate sobre mercado ilegal ganha força
Outro ponto central levantado pelo setor de apostas é o risco de que restrições excessivas ao mercado regulado acabem fortalecendo o mercado ilegal.
Segundo representantes do setor, limitar ou dificultar o acesso às plataformas legalizadas pode empurrar usuários para operadores não regulamentados.
“Proibir ou limitar a operação das bets vai favorecer o mercado ilegal. Quem quiser apostar e não puder fazê-lo dentro da lei irá buscar o mercado informal.”
Essa preocupação é especialmente relevante em um cenário onde o combate às operações ilegais ainda é um desafio estrutural.
Dados oficiais sobre comportamento dos apostadores
Dados do Ministério da Fazenda, obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI), trazem uma visão detalhada sobre o perfil dos apostadores no Brasil.
Distribuição de gastos mensais
| Faixa de gasto | Percentual de usuários |
|---|---|
| Até R$ 50 | 53,4% |
| R$ 50 a R$ 150 | 11,45% |
| R$ 150 a R$ 300 | 6,4% |
| R$ 300 a R$ 1.000 | 9,4% |
| Acima de R$ 1.000 | 19,5% |
Os dados indicam que a maioria dos apostadores brasileiros possui um padrão de baixo gasto mensal.
Tíquete médio mensal
O valor médio gasto por apostador em 2025 foi de R$ 122 por mês, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
Esses números contrastam com a narrativa de impacto generalizado no consumo das famílias.
Impactos regulatórios e próximos passos
O anúncio de novas restrições indica que o setor de apostas online no Brasil ainda está em evolução regulatória. O governo busca avançar em medidas que equilibrem crescimento econômico, arrecadação e proteção social.
Ao mesmo tempo, o cenário evidencia um conflito entre diferentes setores econômicos, cada um defendendo seus interesses e interpretações sobre os impactos das bets.
O desafio será implementar regras eficazes sem comprometer o funcionamento do mercado regulado e sem abrir espaço para o crescimento de operações ilegais.
Conclusão
As declarações de Geraldo Alckmin reforçam que o debate sobre apostas online no Brasil está longe de ser encerrado. O setor, que passou recentemente por regulamentação, já enfrenta novas pressões por restrição e ajustes.
Entre governo, varejo e operadores, o cenário aponta para um ambiente de disputa regulatória intensa, onde decisões futuras poderão redefinir o equilíbrio entre controle, crescimento e legalidade no mercado de bets.


