O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) incluiu os gastos com apostas esportivas na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2024/2025, reconhecendo oficialmente o setor como uma categoria econômica mensurável no Brasil. A mudança integra a revisão mais ampla do levantamento, que também passou a monitorar com mais precisão despesas com compras e serviços digitais. A decisão consolida o mercado de bets como parte real e relevante do consumo das famílias brasileiras. Segundo o levantamento do BNL Data sobre a inclusão das bets na POF, a medição passa a refletir um comportamento de consumo já consolidado em grande parte dos lares brasileiros.
O que é a POF e por que essa inclusão importa
A Pesquisa de Orçamentos Familiares é um dos levantamentos mais estratégicos conduzidos pelo IBGE. É ela que define os pesos de produtos e serviços no cálculo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA — principal termômetro da inflação no país e referência do Banco Central para a política monetária.
Além disso, os dados da POF alimentam o cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) pelo lado do consumo das famílias. Ou seja, ao entrar na pesquisa, as apostas esportivas passam a influenciar dois dos principais indicadores macroeconômicos brasileiros.
A pesquisa analisa mais de 5 mil produtos e serviços. Os participantes registram em cadernetas o que consomem, com detalhes como quantidade, preço e local de compra. Os dados são segmentados por faixa de renda, região e tipo de domicílio, o que permite uma visão granular dos hábitos de consumo da população.
O gerente da POF, Leonardo Santos de Oliveira, explicou que a atualização acompanha mudanças reais no comportamento do consumidor. “A pandemia mudou muito os hábitos de consumo. As compras on-line ganharam protagonismo e estamos acompanhando isso mais de perto”, afirmou. Plataformas de streaming e aplicativos de transporte já eram monitorados na edição anterior. As bets chegam agora ao mesmo patamar.
Apostas esportivas como categoria econômica legítima
A inclusão das apostas esportivas na POF não é um detalhe burocrático. Trata-se de um reconhecimento formal de que o setor ocupa espaço real no orçamento das famílias brasileiras — e que esse espaço é grande o suficiente para interferir em métricas nacionais.
O movimento ocorre em paralelo ao processo de regulamentação do mercado, que avançou de forma acelerada nos últimos anos. Com operadoras licenciadas, regras de monitoramento financeiro reforçadas pelo Banco Central e fiscalização crescente sobre plataformas ilegais, o setor de bets deixou de ser uma zona cinzenta para se tornar um segmento econômico com obrigações, contribuições fiscais e agora, medição estatística oficial.
Para o apostador brasileiro, isso representa uma virada de chave importante. Seus gastos com apostas deixam de ser invisíveis para o Estado e passam a compor o retrato oficial da economia doméstica. O setor ganha visibilidade, legitimidade e, com isso, mais condições de ser tratado com políticas públicas adequadas.
Vale lembrar que a regulamentação das bets no Brasil foi desenhada justamente para garantir que apenas operadoras autorizadas atuem no país, protegendo o consumidor e assegurando que os recursos circulem dentro da economia formal.
Impacto fiscal e na política monetária
Economistas ouvidos sobre a atualização da POF destacam que a pesquisa tem consequências que vão muito além da estatística. O economista Bráulio Borges, diretor da LCA Consultores e pesquisador do FGV Ibre, foi direto ao apontar o impacto na medição da inflação.
“Índices de inflação varejista como o IPCA claramente superestimam a inflação. É resultado conhecido da literatura. Quanto mais tempo leva para incorporar uma POF, mais a inflação é superestimada. E isso obviamente afeta a política monetária”, afirmou Borges.
O economista também destacou o efeito em cadeia sobre as contas públicas. A taxa Selic, que baliza o custo da dívida pública, é influenciada pela inflação medida pelo IPCA. E aposentadorias, pensões e outros gastos previdenciários são reajustados com base nessa inflação. “Isso gera impacto de bilhões de reais no gasto primário do governo. Tem várias implicações”, completou.
Em outras palavras, uma POF desatualizada distorce não apenas os números, mas decisões de política econômica que afetam diretamente a vida de milhões de brasileiros. Incluir as apostas esportivas na pesquisa é, portanto, um passo necessário para que a realidade do consumo nacional seja medida com mais precisão.
Um setor que veio para ficar
A edição 2024/2025 da POF também incorporou novidades em outras frentes: um teste sobre uso do tempo, revisão do questionário de qualidade de vida e perguntas sobre satisfação financeira e equidade. O levantamento cobre todo o território nacional, em diferentes regiões e tipos de domicílio.
O fato de as apostas esportivas terem sido incluídas nesse contexto — ao lado de plataformas de streaming, aplicativos de transporte e compras on-line — diz muito sobre como o Brasil passou a encarar o setor. Não como um problema a ser tolerado, mas como uma atividade econômica a ser medida, compreendida e regulada.
Para o mercado regulado de bets, a mensagem é clara: o Brasil está construindo a infraestrutura institucional necessária para tratar apostas esportivas com a seriedade que o setor exige. Da análise do impacto das apostas no endividamento das famílias à medição oficial pelo IBGE, o país avança em direção a um ecossistema mais transparente, mais justo e mais seguro para quem aposta.
O próximo passo natural é que os dados coletados pela POF 2024/2025 orientem políticas públicas mais precisas — tanto para proteger o consumidor quanto para fortalecer o mercado licenciado frente às operadoras que ainda atuam à margem da lei.



