A proibição de apostas no Brasil não acabaria com o vício nem protegeria as famílias — apenas deslocaria a demanda para o mercado negro. Essa é a tese central defendida por Wesley Cardia, ex-presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), em artigo publicado na Folha de São Paulo. Para o especialista, o caminho oposto — a regulação robusta — é o único que oferece proteção real ao consumidor e benefícios concretos à economia nacional.
Regulação já provou seu valor econômico
Desde que o setor passou a operar sob normas governamentais rígidas, no início de 2025, os resultados fiscais foram expressivos. O mercado regulado de apostas injetou mais de R$ 9,95 bilhões aos cofres públicos em forma de tributos apenas em seu primeiro ano completo de funcionamento legal, com a arrecadação mantendo ritmo positivo em 2026.
Esses números revelam o potencial do setor quando operado dentro da legalidade. Para se ter uma dimensão mais ampla desse impacto, vale notar que apostas online no Brasil já arrecadaram R$ 2,54 bilhões só em 2026, reforçando a trajetória de crescimento da atividade regulada.
Cardia, porém, alerta: esse potencial está sendo subestimado. A concorrência desleal de milhares de sites clandestinos — que não pagam um centavo em impostos — corrói a fatia que caberia ao mercado formal e, consequentemente, ao Estado.
Por que a proibição de apostas no Brasil não resolve o problema
O ex-presidente da ANJL reconhece que há pressão crescente no Congresso Nacional por medidas restritivas, incluindo propostas de proibição total das bets. O argumento utilizado pelos defensores dessa linha é a proteção da saúde financeira e mental das famílias brasileiras.
Cardia, no entanto, questiona a motivação real por trás dessa ofensiva. Segundo ele, com o custo de vida pesando no bolso dos eleitores, há um interesse político em atribuir ao setor de jogos a culpa pelo endividamento das famílias — desviando o foco de questões estruturais como a alta dívida pública e os elevados juros praticados no país.
Do ponto de vista prático, a lógica da proibição tem uma falha central: ela não elimina a demanda, apenas a redireciona. Quem quer apostar vai continuar apostando — mas passará a fazer isso em plataformas sem nenhum controle, sem proteção legal e sem contribuição fiscal. A história das políticas proibitivas ao redor do mundo confirma esse padrão, e o Brasil não seria exceção. Esse debate não é novo: os 80 anos da proibição dos cassinos no Brasil mostram como a demanda reprimida encontrou outros caminhos, muitas vezes ilegais.
Como o próprio Cardia resume: “O problema está no jogo ilegal, e não naquele que segue todas as regras.”
O mercado clandestino é o verdadeiro risco ao apostador
Enquanto apenas 87 empresas operam legalmente no Brasil, cumprindo todas as exigências regulatórias, uma quantidade muito maior de plataformas ilícitas atua sem qualquer supervisão. As consequências são graves e diretas para o apostador:
- Ausência de recolhimento de impostos, privando o Estado de receita;
- Acesso irrestrito para menores de idade;
- Aceitação de recursos de programas sociais, como o Bolsa Família;
- Práticas fraudulentas contra os próprios usuários, sem mecanismo legal de reparação.
Nesse contexto, ampliar restrições ou aumentar a carga tributária sobre as empresas autorizadas teria efeito contrário ao desejado. Cardia é direto: “Proibir as bets, ou coibi-las com a expansão de impostos, só atende aos interesses da criminalidade, porque o mercado será tomado pelo jogo ilegal e sem qualquer controle.”
As operadoras legais já operam no limite do que as taxas atuais permitem em termos de viabilidade financeira. Aperto adicional simplesmente inviabilizaria os agentes que cumprem as regras — e abriria ainda mais espaço para quem nunca as seguiu.
Regulação como proteção real ao apostador
O argumento de Cardia converge com o que especialistas do setor e organismos internacionais há muito defendem: a regulamentação eficaz é o único mecanismo capaz de equilibrar liberdade de mercado, proteção ao consumidor e arrecadação pública.
No Brasil regulado, o apostador tem direito a mecanismos de jogo responsável, canais de reclamação, limites de depósito e transparência nas operações. No mercado clandestino, não existe nada disso. A escolha entre os dois modelos é, na prática, uma escolha entre proteção e vulnerabilidade.
O debate sobre regulação no país está longe de ser novo. A regulação de apostas no Brasil avança em 2026 com novos marcos normativos, mas ainda enfrenta resistência política que, segundo Cardia, beneficia justamente quem opera fora da lei.
Para o apostador brasileiro, o recado é claro: apostar em plataformas licenciadas não é apenas uma questão de legalidade — é uma forma de garantir seus próprios direitos e contribuir para um mercado que financia serviços públicos. O fortalecimento do mercado regulado é, em última análise, o que separa o entretenimento responsável da exploração sem controle. Você pode conferir mais detalhes sobre a análise de Cardia diretamente na cobertura do iGaming Brazil.
Perguntas Frequentes
Por que a proibição de apostas no Brasil seria prejudicial?
Segundo Wesley Cardia, ex-presidente da ANJL, proibir as apostas não elimina a demanda — apenas a transfere para plataformas ilegais, que não pagam impostos, não protegem o consumidor e podem envolver fraudes.
Quanto o mercado regulado de apostas já arrecadou para o Brasil?
De acordo com o artigo de Cardia, o mercado regulado injetou mais de R$ 9,95 bilhões aos cofres públicos em tributos apenas em seu primeiro ano sob normas governamentais, a partir de 2025.
Quantas empresas de apostas operam de forma legal no Brasil atualmente?
Segundo o especialista, apenas 87 empresas cumprem rigorosamente as exigências legais vigentes, enquanto milhares de plataformas clandestinas operam à margem da lei.




