Regulação

Bets e endividamento: crime organizado ganha com proibição


O advogado José Francisco Manssur publicou nesta quarta-feira (29 de abril) um artigo no portal Poder 360 em que critica a narrativa de que as bets e o endividamento familiar têm relação direta de causa e consequência. Para ele, o verdadeiro vilão do orçamento das famílias brasileiras é o custo do crédito — especialmente o rotativo do cartão —, e usar as plataformas de apostas como bode expiatório, além de desonesto com os dados, representa um risco real para o mercado regulado e para o próprio consumidor.

O que os números dizem sobre bets e endividamento familiar

A percepção popular sobre o tema está longe de refletir a realidade estatística. Uma pesquisa da CNT revelou que mais de 70% da população enxerga as plataformas de apostas como um problema grave para as finanças das famílias. No entanto, apenas 11,3% dos brasileiros afirmam apostar de fato.

O dado mais contundente vem de um levantamento da LCA Consultoria: os gastos com apostas equivalem a apenas 0,46% do consumo total dos brasileiros. Para fins de comparação, trata-se de uma fatia significativamente menor do que a destinada a outras formas de entretenimento ou ao serviço de dívidas de crédito.

Manssur também recorreu a uma declaração do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, que já apontou publicamente que a raiz da inadimplência nacional está no rotativo do cartão de crédito. “De um lado, 25,2 milhões de brasileiros que fizeram apostas ao longo de 2025. De outro, mais de 100 milhões de pessoas expostas a uma das formas mais caras de crédito do sistema financeiro”, destacou o advogado.

O contraste é revelador. A escala do problema de crédito no Brasil é muito superior à do mercado de apostas — e confundir os dois não ajuda nem o apostador nem o consumidor endividado.

Atacar o mercado regulado beneficia o crime organizado

Além de distorcer o diagnóstico econômico, Manssur alerta para uma consequência ainda mais grave: enfraquecer o setor autorizado abre espaço para operadores ilegais. E esse é um caminho que o Brasil já conhece bem.

As bets que operam sob o domínio bet.br seguem regras rígidas de transparência, são fiscalizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) e, por lei, estão proibidas de aceitar pagamentos via cartão de crédito — justamente a medida que protege o usuário contra o tipo de endividamento que se tenta atribuir ao setor. Em 2025, esse mercado regulado gerou cerca de R$ 9,95 bilhões entre tributos e destinações legais, além de empregar milhares de trabalhadores qualificados e movimentar setores como call centers, meios de pagamento e marketing.

Operadores ilegais, por outro lado, não seguem nenhuma dessas regras. Não pagam impostos, não protegem o consumidor e não respondem a nenhum órgão regulador. Como já mostramos aqui no Portal das Apostas, bets ilegais respondem por até 50% do mercado no Brasil — e qualquer narrativa que desgaste a confiança nas plataformas autorizadas empurra mais usuários para esse ambiente desprotegido.

A SPA, órgão do Ministério da Fazenda, é responsável por autorizar, regulamentar, monitorar, fiscalizar e sancionar o setor. Segundo Manssur, o trabalho da secretaria já é reconhecido internacionalmente e resultou em mais de 80 empresas autorizadas em operação no país. Vale lembrar também que a ANJL já contestou os dados da CNC que tentam vincular bets ao endividamento, reforçando que o debate precisa ser pautado por evidências, não por conveniência eleitoral.

O risco do discurso eleitoral sobre apostas

Manssur é direto ao identificar a motivação por trás da narrativa: o calendário eleitoral. “Agrada mais aos marqueteiros das campanhas culpar as bets do que enfrentar a velha tragédia nacional do crédito caro”, escreveu o advogado. “É mais simples moralizar o debate do que admitir que o peso principal no bolso do brasileiro continua vindo da fatura do cartão, do rotativo, do cheque especial e da renda que não acompanha o custo de vida.”

Esse tipo de discurso não é inédito. Em períodos pré-eleitorais, setores que movimentam grandes volumes financeiros frequentemente se tornam alvos de retórica populista — independentemente do que os dados mostrem. O problema é que, no caso das apostas, as consequências de uma regulação mal calibrada são concretas: menos arrecadação, menos proteção ao consumidor e mais espaço para o mercado ilegal.

O setor regulado já demonstrou capacidade de se autorregular, colaborar com o fisco e proteger seus usuários. A discussão legítima não é se as bets devem existir — elas existem, são legais e pagam impostos —, mas como aprimorar continuamente as regras para garantir que o entretenimento seja responsável e que o consumidor esteja sempre protegido. Esse é o caminho que o Brasil precisa seguir, e não o de transformar um mercado que funciona em mais um problema fabricado para campanha.

Para acompanhar a evolução da arrecadação do setor e entender o impacto fiscal das apostas reguladas no país, confira nosso levantamento sobre como a arrecadação com bets superou R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre.

Perguntas Frequentes

As bets realmente causam endividamento familiar no Brasil?

Dados da LCA Consultoria mostram que os gastos com apostas representam apenas 0,46% do consumo dos brasileiros. O principal fator de endividamento é o rotativo do cartão de crédito, conforme reconhecido pelo próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

O que acontece se o governo restringir as bets reguladas?

Especialistas alertam que restrições ao mercado autorizado não resolvem o problema do crédito caro e ainda fortalecem operadores ilegais, que não seguem qualquer regra de proteção ao consumidor e não recolhem impostos.

Qual foi a arrecadação das bets autorizadas em 2025?

O mercado regulado sob o domínio bet.br gerou aproximadamente R$ 9,95 bilhões entre tributos e destinações legais ao longo de 2025, além de empregar milhares de trabalhadores qualificados no país.

João das Bets

"Sou um escritor movido pela paixão por tecnologia, apostas e inteligência artificial. Adoro explorar e compartilhar conhecimentos, traduzindo ideias complexas em conteúdo acessível e inspirador. Sempre em busca de novas formas de conectar pessoas com inovação."

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